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Não é fácil ser mulher

>> domingo, 8 de março de 2009

"Tenta sim. Vai ficar lindo."

Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.

- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.

- Vai depilar o quê?

- Virilha.

- Normal ou cavada?

Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.

- Cavada mesmo.

- Amanhã, às... deixa eu ver...13h?

- Ok. Marcado.

Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado.

Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.

- Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.

- Quer bem cavada?

- ...é... é, isso.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.

- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.

- Ah, sim, claro.

Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).

- Pode abrir as pernas.

- Assim?

- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.

- Arreganhada, né?

Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.

Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural.

Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.

- Tudo ótimo. E você?

Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes. O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todas porque se cansam de sofrer sozinhas.

- Quer que tire dos lábios?

- Não, eu quero só virilha, bigode não.

- Não, querida, os lábios dela aqui ó.

Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.

- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.

Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.

- Olha, tá ficando linda essa depilação.

- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. "Me leva daqui, Deus, me teletransporta". Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.

- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram uns pelinhos, tá?

- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.

Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?

- Hein?

- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.

Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.

- Segura sua bunda aqui?

- Hein?

- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.

Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:

- Tudo bem, Pê?

- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.

Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu Twin Peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá?

Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.

- Vira agora do outro lado.

Porra... por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.

- Penélope, empresta um chumaço de algodão?

Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.

- Máquina de quê?!

- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.

- Dói?

- Dói nada.

- Tá, passa essa merda...

- Baixa a calcinha, por favor.

Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.

- Prontinha. Posso passar um talco?

- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.

- Tá linda! Pode namorar muito agora.

Namorar... namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso.

Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.

Queria comprar o domínio preserveasbucetaspeludas.com.br.

- ❤ -

Eu ri muito, porque lembrei que umas semanas atrás, pra agradar o maridinho, depilei geral e quase morri de tanta coceira quando começou a nascer. Aliás, eu ouvi da Melissa a mesma pergunta que ela fez ao tio da Ellen =D

Recebido por email e sem autoria pra variar. Dei uma googlada mas nada achei. Se alguém souber me avise para que eu possa creditar. Vai saber, às vezes foi um post-relato-real de algum blog e eu tô aqui achando que é apenas uma crônica engraçada.

Em tempo: Feliz Dia Internacional da Mulher!

Update
Nada como ter bons colaboradores para uma resposta rápida aos nossos apelos =p
A Naomi do Pensamentos de Uma Batata Transgênica já me ensinou o caminho das pedras e posso dar os devidos créditos: a autora do texto se chama Valeria Semeraro, é de Vitória/ES e escreveu esse relato em seu blog Redatoras de Merda em maio/2007. Não entendo por que não entrou na busca do Google, porque achei uma porrada de gente que publicou como Autor Desconhecido.
Anyway, a César o que é de César. Obrigada Naomi!!!
Nos comentários ainda achei o link para um vídeo no Youtube que eu ri muito também.
http://www.youtube.com/watch?v=BWzi2W6AJKw

PS.: Um pequeno conselho para quem gosta de enviar textos interessantes por email. Não é crime querer compartilhar, basta dar os créditos e a fonte. Aliás, é tão mais fácil enviar o link para o blog, assim o indivíduo seu amigo/parente/família pode se deliciar com outros textos igualmente ricos. Não seja egoísta ;)

Cabe mais uma nota? Gostei tanto do Redatoras de Merda que ele já entrou no blogroll =D

15 Comentário(s):

Anônimo,  5:44 AM, março 08, 2009  

oi, herika! é da val, de vitória/es. link pro post original do blog redatoras de merda [perdão pela palavra, é o nome do blog mesmo].

Luiza Hidemi 7:50 AM, março 08, 2009  

nunca depilei a virilha com cera... mas nunca me passou pela cabeca q seria tao contragedor... e eu achando q ultrason intra-vaginal era uma vergonha sem tamanho... (pelo menos eh indolor)
jah tentei me depilar com akelas maquininhas que arrancam os pelos pela raiz... mas ao ver as primeiras lagrimas, desisti... homem nenhum merece tanto sofrimento... vai a boa e velha gilete mesmo... e ainda assim me pergunto se a coceira que vem depois qdo os pelos comecam a crescer vale a pena...
feliz as japonesas que nao costumam se depilar, e os japas nao acham o fim do mundo...

Luiza Hidemi 9:17 AM, março 08, 2009  

adorei o blog q vc indicou e linkei tb ^^

Anônimo,  12:29 PM, março 08, 2009  

Herika, eu não conhecia o texto e morri de rir com a nossa desgraça!! Mas isto nem é tanto para ficar bonito, penso que seja uma questão de higiene, assim como fazer a barba.

Feliz dia da mulher!! Beijus

kurati 3:51 PM, março 08, 2009  

Agora jah sei o que eu quero ser quando crescer....quero ser depilador fwminino!!!

Liz / Falando de tudo! 5:58 PM, março 08, 2009  

kkkkkkkkkkkkkkk nunca!!
jamais deixaria entrar na minha intimidade assim! alias so meu ginecologista...
eu mesmo me depilo, e faço isso todas os meses que nao sobra nada! tem ceras especias nos carrefours aqui, tudo prontinho basta utilizar com auxilio de um espelho...rs...
mas me diverti com sua experiência! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Nuno-san 10:43 AM, março 09, 2009  

Herika,
Esse post está lindo! Chorei a rir. Chei de emoção até ao fim!
Fiz o FW para a minha mulher, que também não conseguia parar de rir.
Vida de mulher é dura ;-)
Bj,
/Nuno

Anônimo,  1:07 PM, março 09, 2009  

Hahahhahahaha, tô rindo muito aqui!

Eu também não conhecia o texto e juro que, até chegar ao final, eu estava crente de que era um relato seu mesmo! =P

Bah 4:22 AM, março 10, 2009  

ahhahaah eu vi esse e-mail faz mto tempo... engracado eh pq quem me mandou era uma amiga minha que fazia tempo que nao falava. Ai achei que ela tava falando dela... nossa, fiquei meio de boca aberta na hora pensando se era verdade o que eu tava lendo rs... achei que ela tava relatando o que tinha acontecido com ela... mas depois descobri que era o spam basico... mas achei mais legal se fosse o relato dela mesmo rs.. nunca fiz depilacao cavada e nem quero rs... jah basta ter que tirar os pelos das pernas, das axilas, sobrancelhaws... ahh tah loco, amo meu Du, mas se ele me ama tem que aprender a me amar assim tb rs... adorei o que vc escreveu e pelo meu post da pra perceber que chegamos bem rs.. pena que nao pudemos nos conhecer pessoalmente no Nihon, mas contato agora sempre manteremos.

Kisu!

Thatty_xn 7:35 PM, março 12, 2009  

Realmente a depilação é um coisa horrivel,dolorida pra ****,mas é muito bom...dura um bom tempo,da uma sensação de leveza e limpeza que é otimo....Vale a pena...

Ciça Donner 10:11 PM, março 12, 2009  

Ah mana, eu já conhecia esse texto e mesmo assim: TIRA TUDO HAHAHAHAH

Unknown 1:58 AM, março 14, 2009  

Hidemi, também vou de gilete mesmo, nem tenho muito pelos, mas um agrado ao marido de vez em quando não faz mal a ninguém, e siiiiiiiiiim
vale a pena mesmo morrendo de tanta coceira =p

Luma, esse desabafo é muito engraçado mesmo, não? Ainda bem que eu não preciso de nada disso. Umas aparadas com a tesourinha já resolvem meu caso.

kurati, gostou da visão do depilador ou da sessão de tortura? =p

Liz, graças a Deus não é uma experiência pessoal. Mas o texto é engraçado, né não?

Luminha, agora que eu reparei que o estilo dela é mesmo parecido com o meu =p

Thatty, depois desse desabafo eu não tento nem ferrando =D

Ciça, eu recebi isso ano retrasado, achei perdidinho no meio de um monte de emails antigos =p

Célia Costa 11:27 PM, março 15, 2009  

Herika, também pensei que era relato seu até chegar ao final, ri demais, tive minha dose de bom humor nesse domingo cinzento aqui na minha cidade, kkkkkk !
Também nunca fiz e depois desse relato não fiquei nem um pouco animada em fazer !
Beijoooo !

Cris Ventura 8:24 AM, março 19, 2009  

Herika! Chorei de rir! Adorei esse texto que pensei ser um relato seu...hehehehehe...Obrigada pela visita e pela dica no meu blog. Beijos!

Anônimo,  12:30 PM, março 24, 2009  

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Sério, ri demais com isso!!!!

Beijo!

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